Juliano Henrique Xavier Cavalcanti
Coordenador do Território Coletivo
A violência sofrida por grupos tradicionais como os quilombolas e sertanejos (geraizeiro, veredeiros, vazanteiros, caatingueiros, indígenas e outros do norte de Minas Gerais) demonstra-nos que as implicações do racismo institucionalizado vão além das violências físicas e simbólicas promovidas sobre corpos pretos. Há uma persistente tentativa à primazia cultural, sobrepondo grupos com corpos e vivências racializados, secundarizando-os em detrimento de culturas outras. Comunidades que, mesmo não sendo compostas por pessoas estigmatizadas sob o olhar colonialista, mas que são diametralmente opostas às forças hegemônicas, sofrem represálias, desvalorização, aculturação e perda de suas terras por lógicas discriminatórias que perduram na atualidade.
Cumpre destacar que o racismo não age exclusivamente sobre o corpo negro, mas institucionalmente atua sobre grupos e comunidades com cosmo-percepções de mundo que tenham por base o povo negro ou indígena.
Em leitura recente, observou-se na tese de Dayrell (2019) a existência de outras possibilidades de atuação do racismo institucional além da corporalidade negra. A partir de um roteiro etnogeográfico por povos que vivem na região do norte de Minas Gerais, o autor desvela, pelo olhar do inferiorizado, as batalhas de seus antepassados para permanecerem na terra e região de origem. Diversos aspectos mostraram-se relevantes, mas sobressai a visão clara de que a institucionalidade, em parceria com o poder privado, coloca-se, por meio de políticas e ações, contra essas comunidades. Uma característica comum desses povos é que todos são não brancos.
Refletindo sobre a formação das comunidades descritas por Dayrell, percebe-se que a ocupação desses territórios se deu em grande parte por ex-escravizados e indígenas. Porém, o século XX foi de políticas macro de ocupação do “território vazio”, dentre elas a construção de Brasília. Nesses vazios inseriam-se as comunidades que coadunavam sua herança sociocultural com a do negro e do indígena. Uma marcha para o oeste racista e discriminatória.
Nesse contexto, podem ser formuladas algumas questões analíticas para entendimento de como o racismo impacta nessas comunidades: a primeira é o racismo institucional como fator persistente nas dinâmicas socioculturais brasileiras; seguida das marcas imateriais (que envolvem a ética, moral e justiça) como fator simbólico de coesão interna que ameaça o poderio capitalista; e terceiro, o papel da mulher como esteio e vínculo territorial de grupos.
Florestan Fernandes, em A Revolução Burguesa no Brasil (1975), para além de afirmar a posição do país diante das dinâmicas capitalistas mundiais, descreve o envolvimento direto da burguesia no Estado. Para o autor, a burguesia branca comercial, aristocrática e ex-monárquica compôs os cargos de poder estatal e ditou as dinâmicas de desenvolvimento do país, estas ainda marcadas por práticas racistas e discriminatórias. A ocupação dos espaços vazios foi uma política de cunho racista, pois não valorizavam aqueles que ali estavam, mas sim privilegiava culturas que concordavam com o capitalismo desejado.
Indaga-se o não branco, pois percebe-se que nas comunidades tradicionais descritas a colorimetria é variada. Denota-se, então, que as políticas que invisibilizam claramente os negros também invisibilizam os de outras cores. Faz-se essa interseção do racismo sobre as comunidades não brancas por algumas questões proeminentes nas dinâmicas estabelecidas. A primeira é a permissão do Estado em políticas do século passado que doava terras para sulistas ocuparem esses espaços. Isto é, não importava qual a cor dos que ali estavam, mas sim envolvia a dominação do lugar por pessoas que detinham o fenótipo correspondente aos detentores do poder. Tomando como exemplo as comunidades descritas por Dayrell, percebe-se que a região foi ocupada e apresenta em sua geografia as marcas e histórias do povo negro, como os quilombos, mas igualmente possui uma riqueza de povos indígenas e outros com vínculos territoriais consistentes, mas que ao fim tiveram suas terras apropriadas por sulistas brancos.
Um segundo aspecto relevante refere-se ao vínculo com a terra. O vínculo afetivo e de subsistência que essas comunidades nutrem com a terra as faz naturalmente anticapitalistas. E o princípio do capitalismo é o rompimento com a natureza. A ruptura ocorre pela necessidade dele de expansão e de capilarização do seu modo de produção sobre formas tradicionais de produzir e viver. As comunidades que resistem e reexistem no processo de luta contra-hegemônica não só persistem com formas de produzir únicas e locais, mas dispõem de uma cultura que perpetua modos, valores éticos, morais, de justiça e fé que remetem aos antepassados negros e indígenas colonizados. Dessa forma, o Estado reproduz distinções valorativas sobre as culturas. O racismo institucionalizado cobra o povo preto diretamente, como se vê, mas também sobrepõe aqueles que dividem as mesmas bases imateriais e simbólicas dos antepassados negros e indígenas.
As imaterialidades são tão contracapitalistas quanto as resistências corpóreas. Os sistemas socioculturais tradicionais possuem formas de perpetuação de suas comunidades que vinculam sua existência à natureza, ao território, que vão desde a medicina até a fé. A ligação com o espaço não só permite a sobrevivência, mas consente estreitar os vínculos e o entendimento dos mais novos com seus antepassados e assim resistir às pressões externas. Neste contexto, a mulher possui um papel fundamental na comunidade. A força e liderança delas como base para a perpetuação de sua cultura é essencial.
As comunidades tradicionais, de modo geral, seja quilombola, indígena ou outra, possui uma identidade territorial que a define. O território é visto como uma convivialidade, relação social, simbólica e política sobre um espaço. Em comunidades tradicionais, as identidades são construídas de formas distintas, por diversas bases, com sentidos e significados únicos. O que as atravessa de forma transversal é a violência física e simbólica que sua cultura sofre diariamente, seja direta ou indiretamente. Agressões institucionais indiretas vão desde a poluição de suas águas até a implementação de Áreas de Preservação Permanente (APP) em suas terras, que impossibilita o plantio e a subsistência; já a coação por empresas investidoras ou por grileiros que desejam tomar a terra são ataques frontais diretos que comumente resultam em perda de vidas. Ambas as agressões têm o Estado como ator ativo ou deliberadamente um agente passivo.
O racismo é uma das principais ferramentas do capitalismo. Acredita-se que a consequência do escalonamento de seres humanos pela cor da pele vai além do fenótipo. Busca-se evidenciar que as políticas de desvalorização de alguns povos e comunidades também têm nas racialidades, em seu espectro mais amplo, a base de violência. Como já descrito, o racismo não tende só a eliminar o corpo físico, mas busca, por meio de táticas, inclusive a nacionalização de práticas e símbolos de grupos específicos, acabar com aqueles que considera inferiores. Desta forma, apontamos as violências sobre grupos tradicionais como expressão do racismo institucionalizado, visto que em algumas dessas comunidades a formação da cosmo-percepção interna tem por base os modos de vida, a ética, a moralidade, a cultura, o senso de justiça, a economia e a fé relacionados ao povo negro e/ou indígenas. Assim, todos os não brancos são violentados nessas políticas racistas e discriminatórias.
Prof. Doutorando Juliano Henrique Xavier Cavalcanti
Coordenador do Território Coletivo
25/04/2026
Juliano Henrique Xavier Cavalcanti
Coordenador do Território Coletivo
Mapa da distribuição da população negra e parda em Uberlândia - MG
Autoria: Paulo Henrique Amorim (2026)
As periferias apresentam elevada concentração de pessoas negras. Essa afirmativa não constitui novidade, certo? Certo, mas parece não estar suficientemente incorporado ou não se faz presente quando se pensa em macropolíticas (econômicas principalmente) em prefeituras e outros. Levanta-se esta problemática, pois a criação e execução de planos que visam otimização logística, diminuição de custos, ampliação do alcance de alguma política e outras práticas neste sentido devem, como obrigatoriedade, considerar as interseccionalidades que sobrepõem os sujeitos contemplados por essas políticas.
Segundo dados do Censo Demográfico 2022, a maior parte da população se autodeclarou preta ou parda. O aumento no número de pessoas negras revela, efetivamente, uma maior consciência social das pessoas ao olhar-se e enxergar-se como uma pessoa atravessada por marcadores sociais que podem e vão colocá-las em uma posição de subalternização e/ou mesmo invisibilização diante de algumas políticas. Para uma compreensão mais concreta, traremos um exemplo.
O Perfil Demográfico dos Moradores de Favela e Comunidades Urbanas de Uberlândia (2025) aponta, segundo dados do Censo Demográfico do IBGE (2022), que no município há vinte e quatro (24) favelas e comunidades urbanas, quase todas localizadas em áreas periféricas do município. No mapa abaixo (Amorim, 2026), observa-se a distribuição da população negra na cidade. Nele, denota-se que, quanto mais periférica a área, mais se percebe a presença de pessoas pretas. Vê-se ainda que, quanto mais nas franjas urbanas, longe do centro comercial, a gradação cromática evidencia a concentração espacial de pretos mais concentrada.
No cenário educacional, as “merendas” (alimentação escolar), refeições que os alunos e professores (em alguns casos) têm, são um direito social adquirido que tem na materialidade uma importância substancial para os sujeitos atendidos. A crítica aqui não é sobre a merenda em si, mas sim sobre como ela é formulada de maneira centralizada, desconsiderando a existência de demandas locais. A padronização obscurece desigualdades. No portal da prefeitura municipal de Uberlândia, há disponíveis os cardápios mensais, detalhados de acordo com a faixa etária. É um aspecto relevante da cidade pensar efetivamente na idade dos alunos, pois cada ciclo demandará um tipo de alimentação e de cuidado; porém, não é suficiente, tendo em vista outros marcadores sociais relevantes.
Pensemos na dimensão racial. Observa-se que, além de os negros majoritariamente comporem as periferias, eles ainda são a população de menor poder aquisitivo. Isso repercute nas dinâmicas educacionais dos filhos desses grupos sociais. Nesse sentido, esses alunos possivelmente terão déficits nutricionais, tendo em vista também a alimentação em casa. Essas crianças e adolescentes negros, sobretudo em áreas periféricas de expansão urbana, tendem a realizar deslocamentos mais extensos até a escola. Elas possivelmente farão intervalos maiores entre as refeições (isso quando não pulam uma refeição ou mais), o que é um fator prejudicial, pois muitos deles não possuem previsibilidade de quantas refeições farão no dia, sendo, por vezes, a refeição da escola sua principal fonte de alimentação. Uma problemática complexa.
Queremos aqui evidenciar como uma política macro, que em tese universaliza o atendimento sem excluir ninguém, pode e é racialmente excludente por omissão. Pensar e implementar políticas no Brasil deve ser feito considerando os negros. O neoliberalismo, como um modelo econômico que tende a reduzir distâncias operacionais, melhorar a economia e instituir políticas que sejam viáveis com menor gasto, mostra-se insuficiente no local, benéfica apenas para aqueles que o pensaram. A geografia nos mostra como são diferentes as demandas dos sujeitos dispostos em contextos socioespaciais distintos. Uma criança na área central, classe média, com uma alimentação matinal adequada que integra a nutrição diária dela, não tem a mesma necessidade de uma criança de periferia que, por vezes, nem café da manhã toma. A eficiência que uma política pode trazer às contas municipais, estaduais e federais não deve se sobrepor às especificidades locais, que são tão concretas e empiricamente observáveis.
A lógica universalizante das políticas públicas não se restringe à área educacional. Dinâmicas semelhantes podem ser identificadas em políticas culturais, sobretudo naquelas mediadas por instituições governamentais, em que dispositivos burocráticos e técnicos são barreiras ao acesso. Um segundo exemplo são as políticas culturais. Comumente se ouve a respeito de quão positivas são políticas como a Lei Rouanet (Lei nº 8.313/1991) de incentivo à cultura. São duas principais modalidades: a de fluxo contínuo, que pode ser feita pelo portal na internet, e editais. Essas formas já nos apresentam elementos que comprometem os princípios de igualdade e equidade nas disputas. Inicialmente, o acesso e compreensão da linguagem técnica e burocrática dos editais são barreiras estruturais, que aparentemente são simples, mas são complexas para sujeitos e grupos historicamente marginalizados, como parte da população negra, pessoas de comunidades tradicionais e pessoas idosas. Obviamente, não estamos querendo reproduzir estigmatizações racializadas sobre o negro, longe disso. Mas estamos demonstrando que há um distanciamento estrutural que demanda compreensão analítica para ser preenchido.
Há, na formação dessas políticas, uma lógica universalizante que pressupõe colocar todos os sujeitos em uma mesma condição homogênea de acesso. É a lógica homogeneizante nas macropolíticas que ignora as complexidades locais e que desconsidera especificidades socioespaciais. Infelizmente, essas práticas acabam operando de maneira racialmente desigual, pois são os sujeitos racializados, marcados por um processo histórico de discriminação estrutural, que continuam a permanecer marginalizados em detrimento de outros grupos na sociedade. Uma alimentação adequada pode melhorar o rendimento, assimilação do conhecimento, interação e sociabilidade do aluno; contudo, ela só pode ser feita com perfeição caso se pense nela não de maneira geral ou considerando apenas um marcador social, mas sim concebendo-a sob uma perspectiva interseccional. O mesmo se concretiza com a questão cultural: um chefe de terno de congada de oitenta anos, negro, não tem o mesmo capital técnico-burocrático para a captação de recursos de um edital como a Lei Rouanet. Portanto, faz-se necessário pensar na política de forma que essas pessoas também possam acessar seus benefícios.
Cabe destacar que omissão também é uma forma de racismo, sobretudo quando políticas públicas desconsideram as desigualdades territoriais e raciais que conformam a estrutura social brasileira.
Até a próxima.
Prof. Doutorando Juliano Henrique Xavier Cavalcanti
Coordenador do Território Coletivo
19/05/2026